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AMOR OU VITIMISMO

  • 13 de Fevereiro de 2016
  • Marcelo Gomes

O ódio excita contendas, mas o amor cobre todas as transgressões.
Provérbios 10:12

Quando jovem (e ainda hoje, confesso), gostava de ouvir Legião Urbana, um dos grupos nacionais de maior sucesso nas décadas de 80 e 90. Renato Russo, líder da banda, compositor de estilo único e intérprete de voz inconfundível, tinha a especial capacidade de captar os anseios e crises de sua geração, transformando-os em poesia e protesto, música e inconformismo. Pena que sua vida tenha sido tão amargurada e sua morte, tão deprimente. 

Lembro dele porque uma de suas canções, Monte Castelo (1989), reuniu numa só melodia dois dos mais belos poemas já escritos sobre o amor: o capítulo 13 (versos 1 a 8) da carta aos Coríntios, do apóstolo Paulo, e o famoso soneto do português Luís Vaz de Camões, incluído em obra póstuma denominada Rimas. Ambos tornaram-se clássicos da literatura, cada um no seu contexto e à sua maneira. 

O primeiro diz:

Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o sino que ressoa ou como o prato que retine. 
Ainda que eu tenha o dom de profecia e saiba todos os mistérios e todo o conhecimento, e tenha uma fé capaz de mover montanhas, se não tiver amor, nada serei. 
Ainda que eu dê aos pobres tudo o que possuo e entregue o meu corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me valerá.
O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha. Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor. 
O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
O amor jamais acaba!

E o segundo diz:

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente
É dor que desatina sem doer;
É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo amor?

São diferentes, os dois. O primeiro distingue amor de um simples sentimento, declarando-o atuante (bondoso, tudo crê), ético (não se orgulha, não inveja, não se alegra com a injustiça), perseverante (é paciente, tudo sofre, tudo espera, tudo suporta) e permanente (jamais acaba). Coisas que o sentimento não é. E distingue-o das simples ações, por melhores e mais nobres que sejam, afirmando, inclusive, que é possível entregar o corpo ou dar os bens aos pobres sem nenhum amor. Nada disso valerá!

O segundo, usando contrastes e contradições, apresenta o amor como imanente e transcendente (fogo, ferida, dor, sem se ver, não se sente, sem doer), egocêntrico e abnegado (um não querer, um solitário andar, cuidar que se ganha em se perder, estar preso por vontade, servir, ter lealdade), suprido e insatisfeito (contentamento, não contentar-se), angustiado e feliz (descontente, de contente). Um paradoxo que aproxima fortemente, quando aparentemente deveria afastar (como causar pode seu favor nos corações humanos amizade?). Daí a surpresa. Daí o encanto.

O primeiro conceitua amor como missão; o segundo, como mistério. O primeiro, como decisão; o segundo, como êxtase. O primeiro, como milagre; o segundo, como magia. O primeiro, como caminho; o segundo, como cascata. O primeiro, como fundamento; o segundo, como pintura. O primeiro, como vida que segue e não se deixa vencer. O segundo, como morte anunciada que não se deve temer. 

Mas ambos exigem coragem! Ambos exigem disposição para o sofrimento. Ambos exigem certeza. Ambos apontam para o impossível feito possível. Ambos excluem  a autocomiseração. Não há lugar para os vitimismos no amor!

Amor e vitimismo são opostos. Assim como amor e indiferença. Se o amor é um centro vital, o vitimismo está na extrema esquerda, enquanto a indiferença, na extrema direita. Esta mata o outro no coração, anulando a importância de sua existência. Aquele morre na mão do outro, aniquilando-se e ressentindo-se da própria insignificância. O vitimista atribui ao outro, com suas não correspondências, seu desinteresse e suposto descaso, as razões de sua infelicidade e sofrimentos. Considera-se injustiçado, refém. Ah, se alguém o amasse! Ah, se o notassem! Ah, se não fosse tão pequeno, tão fraco! Ah, se pudesse morrer! Mas nem morrer consegue!

O problema dos vitimistas é que não amam a ninguém, senão a si mesmos. Desejam ver seu amor-próprio refletido e fortalecido no amor alheio. Nunca se satisfazem. Nunca apaziguam seus corações carentes, mendicantes. Nunca se dão valor, embora queiram ser reconhecidos e valorizados por todos. Vivem no centro de suas atenções e preocupações, esperando o dia em que se sentirão melhores. E fazem questão de demonstrar sua tristeza ou frustrações, para que todos vejam como são miseráveis. Uns coitados!

Preciso de sabedoria para agir com amor sincero e nenhum vitimismo. Este escraviza no orgulho; aquele liberta para relacionamentos autônomos, interdependentes, marcados pelo respeito à liberdade do outro e o serviço desprendido. Mais sábio, amarei mais e me ressentirei menos. Darei mais e esperarei menos. Sofrerei mais, é certo, mas ruminarei menos. Murmurarei menos. Amarei o outro em sua verdade e limites, bem como em sua dor e beleza. O amor nos desperta do sono e das fantasias de autoafirmação para a realidade da construção diária e difícil dos relacionamentos duradouros. Como cantou Renato: “só o amor conhece o que é a verdade! Estou acordado, todos dormem! Todos dormem! Todos dormem!”

(Extraído do livro "SABEDORIA PARA VIVER E DER FELIZ")

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